nuvem de pensamentos acerca [do pai e] da liberdade

[a propósito do 25 de abril]

Podia dizer que, como nasci depois de 1974, o 25 de abril a mim não me diz muito. Não diz, de facto, mas não é por eu ter nascido pós-revolução; é porque, na verdade, eu sou um bocado distraída – ou desinteressada – nesse tipo de assuntos. Devia ser menos, gostava de ser menos, por isso tento ler mais jornais e investir mais tempo para formular as minhas próprias opiniões. Só não sei se o faço por mim, se pelo meu pai, ou se pelos dois.

[o meu pai, outra vez]

Quando era adolescente, volta e meia, dizia-me: “Ana, lê um jornal… é preciso ler o jornal para entender o que se passa à tua volta.” Aquilo fazia-me sentido e eu retribuía com algum esforço. Sentava-me ao seu lado na mesa de café e lá folheava o Público, mais ou menos para lhe fazer a vontade. Anos depois passou do Público para o I, que na altura tinha um suplemento bem curioso sobre nós, os portugueses. Penso que saía aos sábados. Então, todos os sábados, o meu pai guardava-me o suplemento e estendia-me o jornal: “toma, já o li.” E eu lá me sentava com ele no café, lia o suplemento de uma ponta a outra e folheava o jornal. Todos os suplementos que o meu pai reservou para mim, eu guardei, como pequena prova desta cumplicidade pai e filha em torno do jornal.

[a minha liberdade]
Saí de casa com 18 anos acabados de fazer e a partir daí não voltei a viver com os meus pais. Fui para longe, Lisboa!, pela mão dele [outra vez o pai] e contra todas as vozes conservadoras que questionaram a decisão. Afinal, se tinha o curso à porta de casa, porquê Lisboa!? Ele argumentou, eu confiei e fui. Correu bem. Dali, fui para fora, mais uma vez com o empurrão do pai. Mostrou-me um recorte de jornal e disse-me: “investiga”. Eu investiguei, tratei, confiei e fui. Mais uma vez, correu bem. De todas as vezes que fiz uma mala, nunca me demoveu. Sempre me deu asas. Agora, percebo que foi também por isso que eu nunca esqueci as minhas raízes. Na dúvida, escolhi sempre a família. E correu sempre bem.

[o cerne da questão]

Li algures: “os bons pais dão aos filhos raízes e asas.” A frase veio-me à cabeça a propósito da comemoração da liberdade e foi a deixa para este post. Nunca tinha pensado no assunto, mas agora que sou mãe, pergunto-me: será que eu vou ser capaz? Será que vou saber dar as asas necessárias para a minha cria voar? E ao mesmo tempo dar raízes, daquelas fortes, bem presas à terra, que não se soltam na ventania, sem castrar? Como é que isto se faz? Este é o meu grande dilema.

[para ficarmos por aqui]

No outro dia, a minha terapeuta de shiatsu disse-me duas coisas que andam a remoer nos meus pensamentos. A primeira: todos somos almas livres. A minha filha é uma alma livre e contra isso eu não devo, porque não posso, fazer nada. A segunda: muitas vezes, a família é a guardiã da nossa própria prisão. Por amor, quem mais nos ama é quem mais nos prende e nos impede de ser nós próprios.

Saí de lá desconfortável. Primeiro, porque é preciso ter uma enorme capacidade de desprendimento – que eu, que sou mãe de primeira viagem, ainda não tenho – para imaginar a minha filha bebé não minha, no sentido possessivo. Eu sei que ela não é, eu sei!, mas custa menos se pensar que é. Depois, porque eu sou uma mulher de família. Portanto é-me difícil aceitar que a família – instituição que personifico apenas e só na minha família alargada, não sei pensar de outra forma – que eu tanto respeito, valorizo e preservo, possa ter um efeito nocivo em alguém. Mas eu sei que pode, eu sei!, mas custa menos se não admitir saber.

Parte de mim preferia nunca ter ouvido aquelas palavras. A ignorância é mais facilmente (auto)desculpada. Agora ouço a minha mãe dizer que a coisa mais difícil que existe na vida é educar. Encontrar o ponto de equilíbrio e saber como o manter. Ter claro que, ao educar, dar liberdade também é dar amor, e vice versa. [suspiro] Que pena o meu pai não estar aqui para discutir o assunto com ele.

[em repeat] a banda mais bonita da cidade

[em repeat] a banda mais bonita da cidade

nuvem de pensamentos acerca [do pai e] da liberdade

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There are 4 comments

  1. barbaracouto

    Bonitos pensamentos querida, as dúvidas fazem parte do caminho.. e a C. vai voar bem alto pois tem na Mãe um exemplo de determinação e coragem!

  2. F

    Os Filhos
    (Do Livro “O Profeta”)
    de Khalil Gibran

    Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: “Fala-nos dos filhos.”
    E ele falou:

    Vossos filhos não são vossos filhos.
    São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
    Vêm através de vós, mas não de vós.
    E embora vivam convosco, não vos pertencem.
    Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
    Porque eles têm seus próprios pensamentos.
    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
    Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
    Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
    Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
    O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
    Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
    Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
    Pois assim como ele ama a flecha que voa,
    Ama também o arco que permanece estável.

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