baby blues [1 mês depois]

05_PB_AlexandraCarvalhoJaneiro fugiu-me entre os dedos. Oito dias depois da Camila nascer, vi-me sozinha com as duas, uma mão cheia de perguntas, zero respostas e uma única certeza: a data seria adiada. Ok, não tem sido terrível, não sou uma desgraçada, mas também não tem sido um passeio na praia. As bebés, o trabalho, a casa, é tudo igualmente importante, prioritário e fica sempre tanto por fazer. Procuro não perder o foco no que é essencial, ser tolerante com os meus gritos e as minhas falhas e também não me esquecer de me cuidar mas… não é muito fácil. E há dias mesmo difíceis.

 

Hoje fui jantar à casa de um amigo dos antigos. Quatro crianças e três adultos a tentar comer e ter uma conversa normal sobre coisas um bocadinho mais profundas do que quais fraldas em promoção ou o melhor colégio da cidade. Final da semana, birras, cólicas, sono, panda como música de fundo… complicado. E às 11 da noite, com 0 graus na rua, a enfiar a Constança encasacada na cadeira e a babycoc da Camila, aos gritos, no banco de trás do meu carro de três portas… eu dei por mim a contar até 10, fechar os olhos e a desejar, exausta, que a vida, o mundo, a existência, naquele momento, tivesse um simples botão de pause. Pausa.

 

Confesso: às vezes tenho saudades da minha vida antiga. Do ano de 2001 nos Estados Unidos. Daqueles 12 anos em Lisboa. Das viagens de raparigas que fiz e das que acabei por não fazer com a MJ. Das pessoas da empresa grande. Ou das saídas em trabalho. Sempre era uma maneira de respirar fundo, sair da superfície, passar uns dias fora de casa. Sempre era uma maneira de estar sozinha e de ter tempo para mim. Confesso: de vez em quando, tenho saudades do tempo antes de ser mãe. E então choro. De frustração, de cansaço, de medo; nunca mais a minha vida será igual. É pelos melhores e mais desejados motivos, claro que é, mas é tudo tão arrebatador que… é demasiado arrebatador [obrigada, baby blues].

 

04_PB_AlexandraCarvalho06_PB_AlexandraCarvalhov07_PB_AlexandraCarvalhoDo outro lado do mundo, um telefonema. A distância é frequentemente um entrave à nossa comunicação; mas há dias em que não. Nesses, dá-se a magia de estarmos juntos. Somos longe de ser perfeitos, somos muito imperfeitos até: no presente, no dia-a-dia e na circunstância nem sempre batemos certo. Mas o essencial está lá. Chamo-lhe “a estrutura”. É a estrutura, as nossas raízes, as pessoas e os afetos que nos tornaram no que somos, que nos identifica e que nos liga. E depois o futuro também: a forma como olhamos para a frente, o discurso comum, a família que estamos construir. Não poderia haver outro alguém.

 

Falamos em encontrar o equilíbrio [palavra enigmática, essa]. Em estarmos juntos por mais que dois dias seguidos, em nos isolarmos do ruído para nos conseguirmos ouvir. Falamos de amor, o nosso, que não queremos descurar. Falamos da necessidade de [eu] desligar, de descansar o corpo e a mente, de aliviar a [minha] pressão. Em escapes, da importância dos escapes para manter a sanidade mental. Falamos sobre ser ou não ser feliz, sobre como ser mais feliz. Falamos em tempo [ter tempo] e em fazer aquilo que mais prazer nos dá e que nos leva sempre, sempre, para mais perto um do outro: viajar.

 

09_PB_AlexandraCarvalho8_PB_AlexandraCarvalho21_PB_AlexandraCarvalhoEntão, enquanto a grande viagem não chega, venha o dia em que agarro nas meninas e apanho o avião até Basel. Não será tão cedo quanto gostaria, paciência, mas sei que irá acontecer. E sei que devo aproveitar essa ida para, antes de tudo o resto, fazer uma viagem comigo mesma. Comprometo-me. Anseio por esses dias de paz, de renovação, de reconhecimento. Uma quebra na rotina. Faço o exercício que tantas vezes a Bárbara me recomenda e visualizo: uma pausa de inverno, a oportunidade perfeita passear com as duas no carrinho, atravessar a ponte a pé, sentir o ar frio na cara, andar de bicicleta, perder-me nas lojas, conhecer outros sabores, pessoas e lugares. Para estarmos em família e passarmos bons momentos a quatro. E também para arranjar a casa e preparar um bocadinho mais o dia em que nos voltaremos a reunir naquela cidade e em definitivo – o nosso maior projeto para os próximos meses do ano.

 

[Camila com 9 dias, já está tão diferente, fotografada pela Alexandra cá em casa]

baby blues [1 mês depois]

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do tempo que passa [rápido demais]

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There are 8 comments

  1. Diana

    quase a fazer 1M de bebe carminho, e longe de estar sozinha com as duas… nos dias em que isso já aconteceu, o sono (ou a falta dele) e os famosos terrible two deixaram-me esgotada!! nem imagino muitos dias só as 3… 🙂 são a melhor coisa do mundo, e por isso mesmo conseguem virá-lo ao contrário 🙂 beijinho grande!!

  2. Cisca

    Revejo-me sempre muito nestes textos. A distância e a ausência não são fáceis. Contar os dias para estarmos outra vez juntos não é fácil. Especialmente quando se contam 30 ou 40 para estarmos juntos 7, às vezes 10 e começa tudo outra vez. Também penso no dia em que pego na pequenina e vamos ver o pai. Mas é um voo transatlântico de oito horas e falta-me a coragem. A distância é tramada 🙁

  3. raquel

    Ana,
    Gostei muito deste texto.
    Gosto muito da simplicidade que contém… Da vida real.
    Um grande, grande beijinho e que corra tudo pelo melhor*

  4. Teresa Noéme

    Que bonito, que sincero, que verdadeiro. Adoro ler-te por isso mesmo, não pintas a vida de cor-de-rosa. Pintas a vida com as cores e o preto e branco que tem, que todas as vidas têm. Tens uma familia linda, és muito bonita e os dias maus servem sempre para aprender e seguir em frente. Vais ver que em breve esse equilibrio vai existir 🙂 Um grande beijinho

  5. Ana

    É complicado, diz esta Mãe de um só, com 12 anos (quase 13, o tempo passa, caraças). Ainda que ele já seja independente, ainda que, ainda que, as minhas viagens sozinha – e com o Pai – ficam sempre para depois. Amanhã pode ser que, sei lá, se não der, logo se vê. O que te dizer? Coragem? Olha, não te digo nada, só te pouso a mão no ombro. Tudo o que eu disser só vai piorar e não ajuda. Todos sabemos como é, não vale a pena lembrar (eu pelo menos, odeio que me enfiem o óbvio olhos dentro). Beijinhos e que essa viagem venha depressa!

  6. constantino

    Pois…é muito complicado a “profissão” de pais! Muita responsabilidade, muitos anseios e muitos medos.
    Se serve de consolo, todos passam por isso. São as birras, são aquelas febres que a gente não sabe porquê…” ela estava agasalhada e ficou com febre?!”…mas desaparecem com a mesma velocidade que aparecem!
    Depois vem a escola. Novos amigos e novas febres!…depois vem o liceu. Nova etapa de problemas: a nossa preocupação dos estudos. Queremos sempre melhor para os nossos e às vezes ficamos frustados por não conseguir aquilo que idealizávamos!
    É normal. Eles são o que são e não aquilo que gostávamos que fossem. O importante é eles saberem que podem sempre contar conosco.
    Mas no final, tudo vale a pena. Vais ver que a luta de criar os nossos filhos vale tudo.
    Um dia, vais olhar ao espelho e vais ficar feliz por aquilo que conseguiste e então vais voltar a ter a tua vida própria. Mas vai acontecer algo que tu nunca vais esperar: vais sentir um vazio, uma saudade enorme destes tempos que estás a viver agora: choros, birras, escola(no futuro) e então vais ver o quanto feliz és agora.
    Beijos

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