a vida ultimamente

Ultimamente tenho sentido particularmente a falta do meu pai. Ando a pensar muito nele, ultimamente. Das minhas amigas do Porto e do grupo dos tempos em que vivia em Lisboa. Tenho sentido saudades de uma data de coisas que não vou agora enumerar porque vai soar a lamento. Mas a verdade é que ultimamente tenho sentido muito tudo na pele e esta rotina solitária com as miúdas anda a consumir-me. Há 12 meses que sou mãe a solo. 1 ano. Nunca fui tão posta à prova no meu papel de mãe [ou de qualquer coisa] como estou a ser agora. Eu sabia que ia ser difícil: a logística, a distância, lidar com as emoções, com as saudades. Às vezes as saudades são tantas que me vejo passar da vulnerabilidade para a irritabilidade num abrir e fechar de olhos. Depois, a educação das miúdas, em especial da Constança: os limites, as regras, as cedências, o tempo para estar com ela, brincar com ela, dar-lhe oportunidades, estímulos, ser mãe e pai ao mesmo tempo e com a atenção dividida entre ela e a irmã pequenina. Penso em tudo isto, ultimamente.

Desliguei a tv. Sempre enquanto elas estão acordadas, às vezes até quando estou sozinha. Não há Ruca, Panda nem a Constança em modo autista a olhar para a televisão. Ela perguntou, eu disse-lhe que estava avariada e ela nunca mais se lembrou. Tal como esqueceu o ad [que está com o pai] e o meu iphone [que digo estar sempre sem bateria]. Na Colômbia abusámos dos gadgets e eu decidi que o melhor seria fazer um detox radical [li: viver no mundo real passou a ser um desafio quando o virtual desperta muito mais interesse]. Já passaram 3 semanas. Então tenho passado mais tempo com ela na rua e na cozinha e depois quando estão as duas na cama sento-me a ver a novela para a desligar a cabeça, que bem preciso.

Ando a dedicar-me muito à casa. Passar a Camila do berço para a cama de grades obrigou-me a reorganizar o quarto das miúdas, tarefa que coincidiu com a mudança das roupas da estação e vai daí como outra das minhas resoluções pós-férias é viver com menos coisas, tenho passado muito tempo a limpar gavetas e a esvaziar armários. Pretendo usar um dia por semana nesta missão. Vou de divisão a divisão, em pequenas parcelas, para não tornar a coisa muito difícil nem instalar o caos para sempre na minha sala. Resolvo os eternos pendentes. E como bónus, permito-me a fazer ligeiras intervenções na decoração. Pequenos pormenores: uma manta nova aos pés da cama, almofadas forradas com o tecido achado na feira de Valença, fotografias das miúdas penduradas na parede ou velas cheirosas na casa de banho. Adoro mimar a casa, faz-me mesmo feliz.

Tenho lido mais do que lia. Revistas, principalmente, mas o jornal e livros também. Aproveitei o embalo das férias e decidi não deixar os livros a decorar a mesinha de cabeceira para fazer com eles aquilo para o qual verdadeiramente se destinam [esta é outra das minhas resoluções pós-férias]. Hoje até comprei um: “O Irmão Alemão”, do fabuloso Chico Buarque. Comecei a lê-lo na fila para levantar uma carta registada nos CTT [retirei-o precisamente da estante dos correios] que afinal já tinha sido devolvida. 30 minutos de espera serviram ao menos para ler.

Ultimamente tenho estado mais offline. Tive um problema com o instagram, perdi a paciência para o facebook e dei um tempo ao blog. Até tenho escrito umas coisas, mas não tenho tido vontade de postar porque ou não estão bem acabadas ou não correspondem exatamente ao que sinto e eu, que ainda vejo este blog como uma espécie de diário das minhas emoções e não tanto [quanto devia] como uma ferramenta de trabalho, não me consigo sentir confortável em publicar alguma coisa que não seja a verdade em tempo real. Mas quero partilhar imagens das férias e mais algumas dicas sobre viajar com crianças. Quero-vos falar sobre alguns produtos que as marcas parceiras do blog me enviaram para experimentar e de que tenho gostado muito. E mostrar as novidades do trabalho e do universo *mpp* que, já se sabe, ocupa grande parte dos meus dias. Mas, ultimamente, o cansaço é muito e o foco é outro. Tenho-me limitado a viver e não tanto a dizer que vivo.

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[spring-summer 2015] vestidos de primavera

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There are 7 comments

  1. Rute

    Ana,ainda hoje quando vinha para o trabalho pensava (caramba ainda tenho pra ai mais 2 anos pela frente sem conseguir dormir/descansar (tenho um de 12 e outro de 2…e nao o de 12 não dá menos trabalho)
    É duro mesmo muito duro.
    Beijinho e Força!!!

  2. Teresa Andrade

    Olá Ana, ultimamente tenho seguido o seu blog e já num post anterior lhe queria ter escrito. Sei que está a passar por uma fase difícil e leio nas entrelinhas que procura uma resposta que não encontra. Eu encontro todos os dias uma resposta em Deus. Procure entrar numa Igreja ou fazer um pequeno momento de oração. Eu faço várias vezes através do passo-a-rezar.net ou lugarsagrado.com. Espero que ajude! Coragem nestes tempos difíceis.

  3. EM

    O cansaço toma, por vezes, conta de nós. Está a fazer um ótimo trabalho e as suas filhas estão saudáveis e felizes! É o mais importante. Há que recuperar o ânimo e continuar a ultrapassar as dificuldades. Beijinhos

  4. Raquel

    Nem mais! Como a Filipa e a Diana o referiram, a Ana tem uma forma tão “tudo-menos-plástica” de escrever o que sente na pele, o que lhe vai na alma, q consegue com que nos identifiquemos consigo. Uma mulher de carne e osso, com uma vida feita de lutas, conquistas, derrotas e vitórias. Uma mãe que partilha o verdadeiro desafio de ser mãe – a eterna tentativa de superação – e o faz sem qualquer “retoque”, com toda a honestidade e transparência. Porque todas já sabemos q ser mae é uma experiencia única, transformadora e cor-de-rosa como muitos blogs a pintam e todas precisamos de saber que não estamos sós quando sentimos que na vida real não há photoshop que mascare os nossos “baixos” a nossa tristeza, as nossas dúvidas, angústia e saudade, a nossa frustração e muitas vezes o desespero que sentimos pelo caminho, como o seu blog tão deliciosa e francamente o acrescenta. Parabéns Ana! Continue o excelente trabalho (como mãe, como ser e como blogger) que “deste lado do ecrã” tem muita gente a torcer por si! <3

  5. Ana Moreira

    Ana, a solidão é a sensação mais dolorosa que existe, principalmente quando estamos acompanhados.
    No entanto, mesmo nos momentos mais duros, a Ana tem sempre uma forma particular de manter a esperança .
    Por vezes precisamos mesmo de desabafar…obrigada por tê-lo feito connosco 🙂
    Um beijinho

  6. Filipa

    Lindo… Não a conheço e sinto-me tão próxima da sua realidade, das suas angústias… Por vezes, devido à afinidade que sinto e à proximidade que a Ana vai permitindo ao expor os seus pensamentos de forma tão honesta, tão verdadeira, tenho vontade de lhe dar um abraço e dizer que tudo vai correr bem, que é uma mulher guerreira, como se diz cá no Brasil, e que merece todas as conquistas. Permita-me dizer-lhe que pode tudo, que o cansaço um dia vai passar e que a Ana é muito CAPAZ. Talvez um dia nos cruzemos em Braga (sou Bracarense mas vivo no Rio) e lhe possa dar este abraço. Força aí Ana, tudo vai correr bem.

  7. Diana

    Ana,
    Como a compreendo…
    Nunca a acompanhei tanto como nestes últimos meses.
    Sabe porquê? Tenho duas meninas como a Ana: a Carolina com quase 3 anos e a Benedita com 8 meses. E também eu vivo um casamento “transatlântico” com o marido a trabalhar em Angola!
    A solidão, o cansaço (nunca mas nunca dormi tão pouco), a ginástica diária para tratar das meninas, para as acompanhar, ensinar, brincar, educar… a gestão da distância do pai, o ruca “babysitter” da mais velha enquanto a pequenina exige a minha atenção…
    Há dias mesmo difíceis, onde até de mim própria tenho saudades, de reunir amigos, de tagarelice despreocupada sem fim à vista…
    vai melhorar, de certeza! e um dia teremos saudades de as ter assim pequeninas tão connosco.
    força Ana!
    não está sozinha! 😉

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