cancro, dor e vida [a escrita da madrugada]

casamento_mj_v_blog02casamento_mj_v_blog01De repente, é como se tudo [pouco] que leio esteja destinado a dar-me um abanão. No outro dia, esta realidade tão dramática. Hoje, estas palavras determinadas de uma mulher que eu já admiro sem conhecer.

Não encaro este diagnóstico como uma sentença de morte, mas sim como uma chamada para a vida. O meu corpo não está satisfeito com as escolhas que tenho feito e luta desesperadamente para eu reagir.

Diagnosticaram cancro do pulmão ao meu pai em maio e ele morreu 3 meses depois, no dia mais quente daquele agosto. Foi um processo curto mas não menos doloroso, com alguns picos de esperança e outros de desalento, que todos vivemos de forma intensa, próxima, exclusiva. Naquele verão, a vida como ela era ficou em suspenso. Naquele verão, tudo girou à volta do pai, das consultas do pai, dos exames do pai, dos tratamentos do pai, do conforto do pai, da alimentação do pai, dos desejos do pai e, claro, das tentativas e esforços desesperados, silenciados, individuais ou coletivos, para salvar o pai da doença que se tinha apoderado primeiro dos seus órgãos, depois do seu sorriso, a seguir de todo o seu rosto, da elegância do seu corpo e, por fim, nos últimos dias, da sua lucidez.

Como é óbvio, ninguém conseguia ficar parado, limitar-se aos tratamentos convencionais, desistir. Leu-se muito, fizeram-se telefonemas atrás de telefonemas, e-mails para Lisboa e para o estrangeiro. Investigou-se as propriedades e os poderes curativos dos alimentos. Para garantir que o pouco que ingeria o nutria da melhor forma possível, mudou-se a alimentação. Para tentar travar a doença, fez quimioterapia. E para a procurar entender, aceitou a terapia. Durante algumas semanas, com dificuldade e sacrifício, o meu pai subiu as escadas do consultório do outro médico e sentou-se para falar. Foi ao passado. Foi dentro. Foi fundo. Mas não a tempo.

O cancro está localizado na mama esquerda, por cima do meu coração, onde guardo e escondo estes sentimentos tão tóxicos para mim. É como se estes sentimentos todos se tivessem unido e se metamorfoseado numa massa cancerígena.

Hoje eu sei, todos sabemos, ou acreditamos, que o cancro do pai não aconteceu por acaso, foi antes o resultado de um processo, o desfecho de uma história. Desânimo, revolta, auto-recriminação, insegurança, medo, vergonha, frustração, culpa. Uma pessoa não pensa muito sobre isto porque não é tangível, uma coisa que se veja e que se possa deitar fora, mas as emoções que carregamos ao longo da nossa vida marcam, lentamente, secretamente, profundamente, o nosso corpo transformando-se em dor, em mal-estar, no limite, em doença.

Não estaria eu aqui a partilhar os detalhes que nunca partilhei [são quase duas da manhã, eu ainda estou no showroom e ouço esta playlist] se não soubesse que todos, por um ou outro motivo, temos algo dentro de nós por resolver. Uma profissão que não nos realiza, um casamento que não nos faz feliz, um sentimento que não nos faz bem, uma necessidade por atender, uma experiência traumática, uma gaveta mal fechada. E uma pessoa mete para dentro, adia, adia-se, até que chega a um ponto que… pum! Estoura. Ou então, escrevo para mim mesma.

Portanto… Olha por ti. Pára e escuta o teu corpo. Segue o instinto e o coração. Abre as janelas da casa e sacode o pó. Põe as coisas em perspectiva e a seguir nos devidos lugares. Procura quem e o que te faz bem. Elimina o tóxico da tua vida: vícios, alimentos, pessoas, lugares e sentimentos. Viaja, faz-te ao largo, conhece o mundo. Pratica a humanidade. Sê corajosa, olha pelos teus e olha por ti… Olha pelos teus e olha por ti.

Para não morrer, preciso de me procurar dentro de mim, de libertar o meu verdadeiro Eu. Preciso de iniciar um percurso de auto-conhecimento e de amor próprio.

Primeiro entender. Depois aceitar. E a seguir enfrentar. A vida recompensará.

 

[imagens para relembrar o lado bonito da vida, os dias em que o amor se celebra e que o belo merece ser registado]

casamento da MJ, 21 de março de 2015 * fotografia por Rita P. Braga

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There are 6 comments

  1. Catarina

    Ola! Eu sou a mae da Maria que por coincidencia desfilou para a grace baby and chilD.
    A minha filha ha um ano e meIo foi diaGnosticada com um tumoR de wilms no rim direito. Apesar de ter corrido bem sei exaTAmente do que esta a falar E Como e um processo tao dificil e agressivo. So quem passa por esta triste situacao e que consegue compreender o sofrimento. Foi a minha filha que meu forcas paRa ultraPassar esta etapa tao injusta e dolorosa para Ambas. A maria foi forte cumpriu o protocolo e continUa uma menina feliz e a sorir Para a vida:)
    Um beijinho
    Catarina

    1. Ana Peixoto d'Almeida

      Olá Catarina, obrigada pelo seu comentário. A Maria desfilou lindamente e sei que isso a fez muito feliz, muito obrigada por terem participado!
      Uma doença destas é sempre uma violência e deixa enormes marcas em todos os que a vivem, direta ou indiretamente. Mas há que não deixar a dor sobrepor-se vida, não é?
      beijinhos e que a Maria nunca deixe de sorrir para a vida. ela retribui 😉

  2. joana david

    LI ISTO LOGO DE MANHÃ E FIQUEI A PENSAR NO ASSUNTO, ANDAM ESTAS PALAVRAS A MEXER AQUI DENTRO. FAZEM TANTO SENTIDO, TANTO TANTO.
    OBRIGADA PELA PARTILHA SINCERA E BONITA

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