pensa numa coisa boa


[3.10.11]

– “Pensa numa coisa boa” – diz-me. E eu fecho os olhos.

Estou deitada na relva, numa manta de algodão suave. Cheira a água do rio. Sinto uma brisa leve. O sol aquece-me a perna. Os pés tocam a relva fresca. A mão esquerda está pousada no meu colo. A direita brinca com uma folha de outono acabada de cair. Permito-me pensar simples. Prestar atenção ao que sempre esteve lá mas que eu nunca vi. Que bonito que é o céu visto daqui… Que bonitas que são as folhas das árvores a abanar ligeiramente lá em cima… Não há relógio nem telefone, não há trânsito nem pessoas a chamar por mim. Só o murmúrio da natureza.

– Pensa numa coisa boa. E fecha os olhos.

Estou na casa de Carreço. É Setembro. Na sala, uma lareira que nunca vi acesa. A cozinha é muito pequena e a mãe faz pipocas. Daí, umas escadas que nunca me deixaram descer. E um armário que cheirava a bolachas. Acabei de fazer 6 anos, é o mês do meu aniversário e ainda estou de férias. Tenho a pele bronzeada e caracóis curtos. A brincar, chamam-me Annie. Chego a meio da noite, com o pai, de Lisboa. A minha primeira viagem de avião! A mãe espera-nos acordada, quer saber tudo da minha aventura. Mas eu tenho tanto sono…

– Pensa numa coisa boa. Fecha os olhos. E dorme assim.


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