[sobre as primeiras vezes] no hospital


Há umas semanas fomos, pela primeira vez, ao hospital com a C. Foi a nossa estreia nas urgências pediátricas. A médica de serviço começou por auscultá-la, ver os ouvidos e a garganta. Ela respondeu com choro, muito choro, mais do que proporcional ao sono que tinha. Estava tudo bem mas a febre que já durava há uma semana tinha de ter uma razão. Então há que fazer análises. Veste, despe, levanta, deita, tira sangue, põe algália, uma tortura. E nós a assistir, e a colaborar até, porque tínhamos que a segurar com força. A Constança chorou até ficar roxa e eu não aguentei mais. Escondi-me na casa de banho e deixei as lágrimas cairem. Lágrimas que não eram propriamente de preocupação [afinal era só uma infeção urinária] mas sim de aperto no coração ao vê-la passar um mau bocado, de nervos com tanto choro, de cansaço. Até eu já estava farta de estar ali.

Mais tarde, quando me deitei a pensar n’o melhor do meu dia havia uma ideia que não me saía da cabeça: o sofrimento das mães, dos pais e das crianças que estão verdadeiramente doentes, seriamente doentes, irreversivelmente doentes. É uma realidade que anda por aí à solta mas sobre a qual eu, por norma, não costumo falar. Talvez seja uma forma egoísta de me proteger, não sei, ou porque vivi uma situação inversa com o meu pai, mas não alimento muito estas ideias. São realidades feias, duras, cruas, que me recuso [como se eu as pudesse anular] a aceitar. Mas, naquela noite, dei por mim a pensar na sorte e na fortuna que temos e a sentir-me triste e solidária com todos os que não podem dizer o mesmo. E agora que escrevo sobre isso volto a sentir-me triste e frustrada e penso que devíamos todos fazer mais pelos outros. E não, não é por ser Natal. É porque sou mãe.


3 comentários a “[sobre as primeiras vezes] no hospital”

  1. A minha baby C. é exactamente da mesma idade da Constança. Evito pensar no sofrimento dos pais que têm filhos com doenças sérias. Mas, às vezes, muitas vezes, vem-me à ideia que sou uma sortuda pela vida que tenho porque tenho o principal! Uma filha linda, cheia de saúde e energia, um marido querido que amo muito, uma família unida e trabalho. Sinto-me verdadeiramente agradecida. Todos os outros problemas que vão surgindo no dia-a-dia parecem-me pequenos quando penso nisto. Não podemos retirar o sofrimento a esses pais e crianças mas podemos fazer do nosso mundo, um mundo melhor. Nem que seja com a nossa atitude positiva… que contagie os outros!

  2. 🙁 a Constança esta melhor? Espero que sim.
    Sou voluntária na Terra dos Sonhos, e já assisti de perto a dor dessas crianças e a dor destes pais! E é mesmo mesmo mesmo de partir o coração. MESMO.

  3. Deves ser uma pessoa fantástica Ana! Adoro vir cuscar este continuo na net! Tenho duas filhas, uma com 3 anos e meio e outra com a idade da C. É giro acompanhar as notas que fazes sobre a C., que costumam coincidir com as da minha pequê… 🙂

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